Bordado como resistência política
Atualizado: 2 de nov. de 2022
Momentos na história da arte em que o bordado esteve ligado à minorias e movimentos de resistência
Tem sido comum ouvirmos a frase" bordado é político" esse mês. Mas muitas pessoas se perguntam, por que? O que isso realmente quer dizer? Bordado não é decorativo? Tem que ser político? E qual o sentido dessa frase.
Obra: Marry Cassat, Lydia Seated at an embroidery frame, 1880.

Então a Hannah @earlhanns (designer com pesquisa de TCC em bordado aplicado ao design editorial), e eu, Lidia (mestra em História da Arte pela Unifesp) decidimos juntar alguns pedacinhos de nossas pesquisas acadêmicas para tentar explanar essa pergunta. O bordado está historicamente ligado à minorias e movimentos de resistência, como:
1: Na grécia antiga
Na grecia antiga, onde as mulheres eram parte sem voz social, o bordado era uma representação da comunicação e resistência feminina. A técnica era uma forma que as mulheres tinham para narrar suas histórias (como Helena narra a guerra de Troia através do bordado no livro A Odisseia do grande poeta grego Homero); suas denúncias (como no mito de Filomena, onde a mesma usa do bordado para contar para sua irmã a violência sofrida por ela, e Aracne que denuncia em sua tapeçaria os crimes sexuais de Zeus contra as mulheres mortais); assim como suas armas de luta (como o uso da técnica por Penélope para fugir de seus pretendentes, também na Odisseia de Homero).
2: No século XIX
No século XIX, as mulheres eram proibidas de estudar belas artes, e o bordado acabou se tornando uma das unicas praticas artísticas permitidas à elas. Após a invenção da máquina de costura, o bordado manual foi "rebaixado" à um passatempo feminino. Dessa forma, as rodas de bordado eram um momento em que as mulheres podiam sair sem seus maridos e se reunirem para se organizar politicamente, sem dizer que estavam se organizando politicamente. Assim, por diversas vezes utilizavam o bordado de forma subversiva afim de criticar a sociedade patriarcal.
Indicação: O livro "The Subversive Stitch: Embroidey and the making of the feminine" traz essa questão de forma muito rica e aprofundada.

3: Movimento Arts and Crafts
Arts and Crafts foi movimento estético e social inglês, criado na segunda metade do século XIX por William Morris e diversos teóricos e artistas, que pretendiam resistir ao declício do bordado e outras artes manuais com status de "artesanato". O movimento questionou a distinção entre arte e artesanato, e propunhava o fazer manual como alternativa à mecanização e à produção em massa. Eles se utilizaram do bordado para se opor ao sistema capitalista vigente da revolução industrial.
Indicação de livro: "Threads of Life: A História do Mundo pelo olho de um Agulha"

4: No século XX
Em boa parte do século XX, quando o bordado manual se convencionou (apesar dos esforços de WIlliam Morris) com status de "artesanato", e se tornou por muitos anos uma prática quase esquecida pelas elites, - - no Brasil, no senso comum, relacionada à panos de prato - alguns artistas importantes na história da arte resgataram o bordado com o status de arte de fato: Arthur Bispo do Rosário (homem preto nordestino), Leonilson (homem gay), e Louise Bourgeois (feminista) são alguns exemplos de expoentes que levaram o bordado aos museus novamente.
Obra: Leonilson

5: Nos museus atualmente
Em instituições culturais renomadas como Sesc e Masp, o bordado têm aparecido em exposições com temas de engajamento político. Tais como a expo "Transbordar: Transgressões do Bordado" no Sesc Pinheiros 2020, que continha obras de mulheres e homens artistas que se utilizam do bordado como um meio contestador de hierarquias estéticas e sociais; a expo "Países Espelhados: encontros culturais entre o Brasil e nações africanas de língua portuguesa", que conta com o bordado para representar a diversidade cutural, de 2020; e a expo "Carolina de Jesus: Um Brasil para Brasileiros" de 2022 no IMS-SP, que mostra a arte de bordadeiras negras de periferia que usavam o bordado como forma de expressão da realidade em que viviam.
6: Herança vinda de comunidades
Por muitas décadas antes da pandemia e da glamourização no instagram, o bordado e o artesanato em geral existiu como uma forma de subsistência e complemento de renda para mulheres de famílias pobres e classe média baixa. O ensino de bordado com as técnicas que aprendemos hoje em cursos caríssimos da hotmart chegaram até nossa geração através de diversas mulheres que repassaram a prática boca a boca, sem uma metologia lucrativa para isso. O bordado é uma das práticas artisticas mais baratas (comparada à pintura por exemplo) e por isso sempre foi acessível a todos.
Concluindo
Mas porque o bordado tem que ser resistência? Não tem que ser. O mundo está em constante mudança atualmente vemos uma crescente apropriação da classe média e alta branca que elitiza o bordado e seus temas, e tá tudo bem porque a arte democrática. Bordado como algo meramente decorativo também não é algo problemático nem novo, majoritariamente na história ele foi usado como ornamento. Mas disso, a ser algo dissemina símbolos de politicas conservadoras e preconceituosas com as minorias, acaba sendo uma contradição porque herdamos delas essa arte. Constatamos que esse é um fenômeno que tem menos de 10 anos na história milenar na arte do bordado e no Brasil, e é importante que compreendamos a carga histórica que essa prática carrega ao longo dos séculos, não é? :)




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